Desigualdades entre países no treinamento cirúrgico: como uma inovação brasileira busca transformar essa realidade
Por: Daniela Montenegro – Iniciativa desenvolvida no Brasil amplia o acesso à capacitação cirúrgica e busca reduzir diferenças na formação de profissionais em diferentes partes do mundo. A qualidade de uma cirurgia não começa na sala de operação. Antes do primeiro contato com um paciente, médicos precisam desenvolver coordenação, precisão, capacidade de decisão e domínio […]
Por: Daniela Montenegro – Iniciativa desenvolvida no Brasil amplia o acesso à capacitação cirúrgica e busca reduzir diferenças na formação de profissionais em diferentes partes do mundo.
A qualidade de uma cirurgia não começa na sala de operação. Antes do primeiro contato com um paciente, médicos precisam desenvolver coordenação, precisão, capacidade de decisão e domínio das diferentes etapas de um procedimento. Esse aprendizado exige prática constante, supervisão qualificada e acesso a estruturas adequadas de treinamento.
Essas oportunidades, porém, não estão distribuídas igualmente pelo mundo.
Enquanto grandes centros médicos contam com laboratórios de simulação, equipamentos avançados e programas estruturados de capacitação, instituições de regiões com menos recursos ainda enfrentam dificuldades para oferecer experiências semelhantes aos seus residentes e cirurgiões.
Em países de baixa e média renda, a educação cirúrgica ainda depende, em grande parte, de aulas teóricas, observação e aprendizado durante procedimentos realizados em pacientes. É justamente nessa distância entre quem tem e quem não tem acesso a ferramentas avançadas de treinamento que a tecnologia pode desempenhar um papel transformador.
Entre as iniciativas que buscam ampliar essas oportunidades está a Orbitau, empresa brasileira fundada pela médica oftalmologista, pesquisadora e empreendedora Tauanni Cândido Alves e Silva, pesquisadora no Massachusetts Eye and Ear, hospital de ensino afiliado à Harvard Medical School, em Boston, com atuação na área de oftalmologia.
A companhia desenvolve modelos sintéticos de olhos, soluções de simulação cirúrgica, projetos customizados para a indústria e tecnologias de inteligência artificial voltadas ao treinamento e à avaliação do desempenho cirúrgico.
Criada a partir de uma necessidade identificada por Tauanni durante sua própria formação médica, a tecnologia hoje está presente em 18 países e vem sendo utilizada por instituições de ensino, hospitais, congressos e empresas da indústria oftalmológica.
Da necessidade observada durante a formação à expansão internacional
Na oftalmologia, o desafio do treinamento é particularmente relevante. A cirurgia de catarata exige movimentos delicados em um espaço extremamente reduzido. Durante a formação, o médico precisa aprender a manipular instrumentos dentro do olho, controlar equipamentos e executar sucessivamente diferentes etapas sem comprometer estruturas sensíveis.
O treinamento diretamente em pacientes é parte indispensável da formação, mas não deve ser a única oportunidade para o desenvolvimento inicial dessas habilidades.
Foi nesse contexto que Tauanni começou a desenvolver o OrbiTau, um modelo sintético de olho projetado para reproduzir fisicamente diferentes etapas da cirurgia oftalmológica.
O simulador permite ao profissional utilizar instrumentos e equipamentos cirúrgicos reais e praticar procedimentos como incisões, capsulorrexe, hidrodissecção, manipulação e fragmentação do núcleo, facoemulsificação e implante de lente intraocular.
Em vez de depender exclusivamente de um ambiente virtual, o cirurgião interage fisicamente com estruturas sintéticas desenvolvidas para reproduzir componentes do olho humano, como córnea, cápsula anterior, cápsula posterior e núcleo do cristalino.
A proposta é permitir que um procedimento seja repetido em ambiente controlado antes de ser executado em um paciente.
A tecnologia nasceu no Brasil, mas sua expansão passou a conectar a empresa a diferentes centros de ensino e à indústria oftalmológica internacional.
Atualmente, os modelos Orbitau já chegaram a 18 países e são utilizados regularmente em atividades educacionais e treinamentos promovidos por grandes empresas do setor, incluindo Alcon, Johnson & Johnson, ZEISS, Bausch + Lomb e STAAR Surgical.
A presença nesses ambientes amplia o alcance de uma tecnologia originalmente desenvolvida para enfrentar um problema observado durante a formação cirúrgica brasileira.
Validação científica
A expansão internacional passou a ser acompanhada também por validação científica.
Em 2025, foi publicado no periódico Arquivos Brasileiros de Oftalmologia o estudo “Simulated phacoemulsification training using the OrbiTau artificial eye: Experience at a single institute”, realizado com participação de cirurgiões do Massachusetts Eye and Ear.
O estudo avaliou 11 cirurgiões com experiência prévia em diferentes plataformas de simulação de facoemulsificação.
Entre os participantes, 90,9% consideraram que a cápsula anterior do modelo apresentava comportamento comparável ao da cápsula humana durante a capsulotomia, enquanto 72,7% avaliaram a consistência do núcleo sintético como semelhante à do cristalino humano.
A maioria dos participantes também considerou o OrbiTau mais realista e mais fácil de utilizar do que outros simuladores comerciais com os quais possuíam experiência.
Os autores concluíram que o modelo reproduz de maneira realista estruturas oculares e pode constituir uma alternativa viável para o treinamento de cirurgia de catarata.
A publicação acrescentou uma nova dimensão ao projeto: uma tecnologia desenvolvida a partir de uma dificuldade vivenciada durante a formação médica passou a ser submetida à avaliação acadêmica em um dos principais centros de oftalmologia dos Estados Unidos.
Do Brasil para o cenário europeu
Outro sinal da expansão internacional ocorreu em 2026.
Nos congressos da BRASCRS, no Brasil, a Orbitau passou a realizar uma competição de cirurgia de catarata utilizando seus simuladores. A iniciativa tornou-se recorrente no evento.
Neste ano, após convite da liderança da European Society of Cataract and Refractive Surgeons, ESCRS, formalizado por comunicação oficial e contrato com a entidade, a Orbitau foi convidada a levar o formato para Londres durante o congresso europeu da sociedade.
A edição internacional teve inscrições esgotadas e recebeu participantes de mais de 30 países.
O convite ampliou para o cenário europeu uma iniciativa de treinamento desenvolvida inicialmente no Brasil e colocou cirurgiões de diferentes nacionalidades em contato com a plataforma brasileira.
Da educação médica à pesquisa para a indústria
A aplicação dos modelos também começou a ultrapassar o treinamento cirúrgico.
A Orbitau desenvolve modelos de olhos e soluções customizadas para empresas que precisam reproduzir condições cirúrgicas em projetos de pesquisa e desenvolvimento.
Em um dos primeiros trabalhos dessa natureza, a empresa foi contratada para avaliar diferentes modelos de cânulas e investigar a formação de bolhas durante procedimentos simulados de cirurgia de catarata.
Foram utilizados olhos Orbitau para padronizar o ambiente experimental e produzidos 90 vídeos, correspondentes à avaliação de três modelos diferentes de cânulas.
A análise dos experimentos incorporou outra frente tecnológica desenvolvida pela companhia: a Orbitau AI.
Inteligência artificial e avaliação da evolução dos residentes
Tradicionalmente, a evolução de um residente é acompanhada pela observação direta de professores e cirurgiões experientes. Essa supervisão permanece indispensável, mas pode variar conforme os critérios empregados por cada programa e a disponibilidade dos instrutores.
A Orbitau AI foi desenvolvida para acrescentar uma camada de análise objetiva ao treinamento, utilizando vídeos das cirurgias para gerar métricas de desempenho e permitir o acompanhamento da curva de aprendizado.
Em 2026, a empresa iniciou a instalação da tecnologia nos primeiros clientes, incluindo uma instituição na Alemanha.
A plataforma é utilizada para analisar procedimentos realizados por residentes durante seus treinamentos, permitindo mensurar aspectos de desempenho e acompanhar a evolução individual ao longo do tempo.
A proposta não é substituir a avaliação dos preceptores, mas complementá-la com informações objetivas e comparáveis.
A mesma capacidade de análise de vídeo também foi utilizada no projeto de pesquisa envolvendo os três modelos de cânulas, demonstrando que a tecnologia pode ser aplicada tanto à educação cirúrgica quanto à pesquisa e ao desenvolvimento de dispositivos médicos.
Uma plataforma criada a partir de um problema real
Tecnologia, isoladamente, não elimina as desigualdades na formação médica. Programas de treinamento dependem de hospitais, instrutores, equipamentos, financiamento e políticas educacionais adequadas.
Mas a possibilidade de praticar repetidamente um procedimento antes de realizá-lo em um paciente pode reduzir uma das diferenças existentes entre centros com ampla estrutura de treinamento e instituições com menos recursos.
A trajetória de Tauanni reúne formação clínica, pesquisa científica, propriedade intelectual, desenvolvimento de produtos e expansão internacional.
O projeto que começou com um modelo sintético criado para solucionar uma dificuldade observada durante sua formação hoje está presente em 18 países, é utilizado por grandes empresas da indústria oftalmológica, integra projetos de pesquisa, foi avaliado cientificamente nos Estados Unidos e começou a incorporar inteligência artificial para mensurar o desempenho de cirurgiões em treinamento.
Ao combinar tecnologia física desenvolvida no Brasil, pesquisa realizada em colaboração com pesquisadores ligados ao Massachusetts Eye and Ear e à Harvard Medical School e inteligência artificial já em implantação internacional, Tauanni construiu uma trajetória voltada a um objetivo maior: contribuir para que a qualidade do treinamento cirúrgico dependa cada vez menos do país, da localização ou do orçamento da instituição.
